𝗔𝗡𝗔𝗟𝗜𝗦𝗧𝗔 𝗚𝗨𝗜𝗡𝗘𝗘𝗡𝗦𝗘 𝗔𝗣𝗢𝗜𝗔 𝗖𝗥Í𝗧𝗜𝗖𝗔𝗦 𝗗𝗘 𝗝𝗢Ã𝗢 𝗟𝗢𝗨𝗥𝗘𝗡Ç𝗢 𝗖𝗢𝗡𝗧𝗥𝗔 𝗚𝗢𝗟𝗣𝗘 𝗠𝗜𝗟𝗜𝗧𝗔𝗥 𝗗𝗘 𝗡𝗢𝗩𝗘𝗠𝗕𝗥𝗢 𝗣𝗔𝗦𝗦𝗔𝗗𝗢
O analista político guineense Bacar Camará concorda com as preocupações expressas por João Lourenço. Para o especialista, o regime militar guineense não tem legitimidade para organizar as eleições previstas para dezembro deste ano.
𝗙𝗢𝗡𝗧𝗘 : DW-África
O Conselho Nacional de Transição da Guiné‑Bissau endurece o tom contra líderes da CPLP. Acusa agora o Presidente angolano, João Lourenço, de “hipocrisia” e “eleições fraudulentas”, tendo endurecido o discurso contra todos os que se manifestam publicamente contra o golpe militar de novembro passado.
Entre os líderes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o regime deixou de fora apenas Moçambique e o Brasil.
No poder desde novembro de 2025, o CNT tem reagido de forma contundente a todas as declarações externas que condenam o golpe que interrompeu as últimas eleições gerais.
Esta segunda‑feira, o órgão acusou vários chefes de Estado de adotarem uma postura “hipócrita” e paternalista.
Segundo o porta‑voz Fernando Vaz, vários desses líderes “tentam dar lições de moral e democracia à Guiné‑Bissau, enquanto as suas próprias casas padecem de muitos e graves males”.
Críticas diretas a João Lourenço
O CNT reagiu em particular às declarações feitas por João Lourenço no sábado, no último dia da sua presidência rotativa da União Africana. O Presidente angolano condenou o golpe militar na Guiné‑Bissau, defendendo que a normalização de governos militares é inaceitável.
A resposta de Bissau não tardou. Fernando Vaz acusou o chefe de Estado angolano de ignorar problemas internos do seu próprio país e fechar os olhos a “eleições fraudulentas” ou processos eleitorais “viciados”.
“O Presidente angolano esquece, por conveniência, que eleições fraudulentas e processos viciados constituem, por si só, golpes constitucionais”, afirmou Vaz.
Para o CNT, esses processos silenciam a oposição, fragilizam as instituições e mantêm uma “fachada democrática” apenas para consumo externo.
Analista apoia críticas de João Lourenço
Mas o analista político guineense Bacar Camará concorda com as preocupações expressas por João Lourenço. Para o especialista, o regime militar guineense não tem legitimidade para organizar as eleições previstas para dezembro deste ano.
Camará defende que a transição deve ser conduzida por civis independentes: “Permitir aos protagonistas do golpe organizar o próximo processo eleitoral tornaria a votação previsível e pouco credível”, comenta em declarações à DW.
Outro dos alvos preferenciais do Conselho Nacional de Transição tem sido o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves.
Fernando Vaz acusou o chefe de Estado cabo‑verdiano de incoerência por se ter afastado inicialmente da crise guineense, “lavando as mãos” e delegando a mediação à Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), mas surgindo agora a defender a necessidade de diálogo e de uma solução democrática para o país.
Vaz afirmou que “a certidão de nascimento de Cabo Verde foi escrita com sangue derramado nas matas da Guiné‑Bissau”, acrescentando que Cabo Verde não tem autoridade moral para ditar condutas.
Escalada de tensões com a CPLP
A CPLP, liderada atualmente por Timor‑Leste, cancelou a missão de mediação prevista para esta semana após sucessivas trocas de declarações.
O Governo timorense chegou a classificar a Guiné‑Bissau como “Estado falhado”, ao que Bissau respondeu dizendo que “Timor não é nada na arena internacional”. O primeiro‑ministro Xanana Gusmão pediu, depois, desculpa.
Para Bacar Camará, estas reações refletem também o cansaço dos parceiros internacionais face às crises políticas recorrentes na Guiné‑Bissau, que se têm sucedido ao longo dos últimos anos.
“Todos nós, guineenses, estamos frustrados. Essa frustração já chegou também ao exterior, e Timor acompanha a Guiné‑Bissau de perto. Talvez isso tenha provocado a utilização desse adjetivo.”
A sequência de confrontos verbais começou com Portugal, passou por São Tomé e Príncipe, seguiu‑se Timor‑Leste e agora atingiu Cabo Verde e Angola.
Para já, Fernando Vaz alerta que “a soberania guineense não é um brinquedo para exercícios de retórica em fóruns internacionais.”
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