“NÃO SE PERCEBE QUAL É A ESTRATÉGIA DA UNITA” , DIZ ANALISTA PAULO INGLÊS
Luanda: A oposição caminha para duas plataformas antes das eleições de 2027, num cenário que pode comprometer a alternância. À DW, o analista Paulo Inglês questiona a estratégia da UNITA e alerta para o risco de favorece o MPLA.
Fonte: DW África
UNITA é acusada de travar união da oposição
O pedido de formalização da marca Frente Patriótica Unida (FPU), sem o PRA-JA Servir Angola, e agora também a plataforma "Encontro de Unidade para Alternância Democrática em 2027", apontam para a formação de duas grandes plataformas da oposição antes das próximas eleições gerais. Mas que impacto poderá esta divisão ter na capacidade dos partidos da oposição de desafiar o MPLA?
O sociólogo e analista angolano, Paulo Inglês questiona, por exemplo, a estratégia política adotada pela UNITA, que no seu entender não quis fazer cedências para garantir a permanência do PRA- JA Servir Angola na FPU, numa altura em que também se fala de possibilidade do Bloco Democrático abandonar a frente.
DW África: Como avalia a forma como a UNITA conduziu a sua relação com os restantes partidos da Frente Patriótica Unida (FPU) e o consequente fim da coligação?
Paulo Inglês (PI): O que há é uma espécie de falta de estratégia — pelo menos, não se nota uma estratégia que a UNITA tenha. Porque a UNITA estava num grupo da FPU ainda antes, inclusive, de ser uma força política. E eu acho que, num projeto como este, a UNITA tinha que fazer cedências. Mas a UNITA achou que não e que os outros é que tinham que ceder. E, como não cederam, é claro que o grupo se desfez.
Mas a UNITA fez uma coisa assustadora. Para confirmar, parece que a UNITA, sem o aval dos outros, patenteou o nome FPU e ficou proprietária disso. Uma vez proprietária, então pode chamar qualquer partido para fazer parte. Eu não sei se isso está confirmado, mas isto é o que se diz por aí. Se for isto, é um golpe político incompreensível, porque fica uma espécie de pressão, não apenas aos outros partidos, mas as pessoas que, em 2022, votaram na ideia da FPU como uma espécie de projeto possível de alternância política. Não ganharam, evidentemente, mas podia ser um projeto, um pontapé de saída.
DW África: Um pontapé de saída, se usarmos essa expressão.
PI: Exatamente, exatamente. Que depois ia ser amadurecido, ia ganhar outros contornos, ia ser aprofundado. Mas a UNITA não aceitou. Não cedeu tanto — ela disse que tinha os seus símbolos, tinha a sua história.
Então, normalmente, um partido político é uma espécie de instrumento para aquisição do poder, para tomar decisões que resolvam os problemas das pessoas. Mas a UNITA fez o contrário, parece: são as pessoas que têm que ter os problemas da UNITA.
DW África: Mas, neste caso, a UNITA, ao se agarrar a este seu passado histórico, não está também a ficar ultrapassada em relação às demandas atuais dos eleitores e do povo angolano?
PI: Infelizmente, sim. Porque, na minha opinião, é incompreensível tentar perceber qual é a estratégia da UNITA. É uma estratégia que, politicamente, pelo menos, não se percebe: O que é que a UNITA quer? Quer dizer, não sabem muito bem o que é que o povo pensa, o que é que o povo quer? Dos mais jovens, eu acho que perderam um pouco esta noção — esta ideia do que os seus militantes pensam, dos seus seguidores, etc.
Mas uma democracia não se ganha apenas com os próprios seguidores. Tem que atrair um grupo; você tem que falar para um grupo maior. Porque, além dos seus seguidores, você tem que conquistar e convencer os outros. Mas, com medidas desta maneira, não faz sentido.
DW África: Mas esta situação também pode até facilitar o MPLA, não é? Quando há uma oposição dividida nas vésperas das eleições, não é?
PI: É assim: o MPLA, para tirar vantagem, não precisa da divisão da oposição. Teria vantagem sempre. Até podia ser que não tivesse, eventualmente, mas os votos, havendo transparência, seriam melhor distribuídos. Então, a disputa do poder seria muito mais interessante.
Haveria muito mais limitação do poder e, então, tinha que haver mais cooperação e negociação. Isto é que seria interessante.
BENGUELA7 A NOTÍCIA EM TEMPO REAL


Comentários
Enviar um comentário